sábado, 23 de outubro de 2010

Herança cíclica

Existem milhares de pensadores que afirmam a depressão da sociedade com diversas maneiras, mas usaremos da literatura para tentar explicar a queda da produtividade musical brasileira. Obviamente a generalização desta ramificação, pode e é, prejudicável aos alternativos/undergroud. Entretanto, quero salientar neste post a popularidade. Ou seja, aquilo que chamamos de "música" tocadas nas rádios, televisões e de fácil acesso na Internet. O intuito não é ofender as bandas que visam a comercialidade - um dos termos certos, para as atuais 'modinhas' - e sim, questionar se o dinheiro é melhor do que a musicalidade. O Brasil não é um país ativamente musical no comércio exterior, fazendo muito mais sucesso entre a população nativa e que as vezes, deixa muito a desejar em suas escolhas.

Uma das várias facetas observadas é de que todo e qualquer tipo de arte está relacionada a música, seja a do próprio tempo ou mostrando-nos atualidade. Prova disso é o que Vinícius de Moraes (2° e 3° Fase do Modernismo Brasileiro) fez nos anos 50/60, com seus textos ditando o que posteriormente seria a Bossa Nova. Aquele jeitinho simplista das melodias, as letras apaixonantes chegando até a pieguice, valorização extrema da mulher; assim foi seguindo até a época Jovem Guarda e consequentemente chegando até hoje - com muito menos genialidade, é claro. Podemos dizer que Vinicius não pode ser comparado a Carlos Drummond de Andrade, mas não podemos avacalhar com Vinicius e compara-lo as atuais bandas de happy rock/sertanejo/pagade (tais gêneros que adoram valorizar a mulher ou tomar um pé-na-bunda pela mesma)

É inevitável dizer que o amor é a inspiração musical para todo e qualquer ser humano. Por razões óbvias, não há como criticar a licença poética do amor nas letras, pois através deste sentimento pode-se dar abertura para muitos outros segmentos afetivos. Entretanto acho que a vida não apenas se resume em escrever sobre tal assunto. Há uma parte de nossas mentes que devem ser usadas para a busca de um conhecimento pessoal, que muitas vezes não envolve só amor. Devemos exercitar-la para sermos críticos, analíticos e não alienados. Como já citamos Vinicius, continuaremos na mesma linha modernista. Em obras como "Rosa de Hiroshima" e "Operário em Construção", o autor mostra-nos sua capacidade crítica sobre assuntos que não estão ligados no campo erótico e sim social, características do da segunda fase do Modernismo ou até mesmo do Neo-Realismo.

O reconhecimento pela massa e o lucro são eternamente visados pela bandas atuais, o segundo muito mais ainda. Por mais que ás vezes queria desacreditar que vivemos em um mundo tão extremamente capitalista, o mercado musical realmente virou uma bolsa de valores. O gosto popular se transformou em investimentos a curto prazo, ou seja, enganação e falta de qualidade. O que se é confeccionado em pouco tempo, ainda mais se tratando de música, não pode ser lá grandes obras que marcaram gerações. Os músicos de outras épocas são lembrados eternamente por seu ineditismo musical, as bandas de hoje são lembradas apenas por seu inedistimo comercial. Daqui há alguns anos, poucos se orgulharam de terem sido fãs de certas bandas das quais não preciso citar nomes, enquanto a geração 'antiga' bate no peito e se orgulha por obras primas.


A música brasileira popular perdeu o seu brilhantismo. As letras que antes eram melancólicas e amorosas continuam, porém com muito mais vulgaridade, muito mais efêmero, muito mais literalmente 'água-com-açúcar'. Percebo um enriquecimento nos poemas de Vinicius, nas canções de Chico e até mais sentimento transcrito em palavras em Erasmo ou Roberto. Já não consigo ver tal coisa em outros gêneros atuais. O que aconteceu com a população? A depressão vem crescendo. Há perdas de valores, distorção de conceitos e o que geremos é quase um lixo. Pessoas-lixo-robô-fútil. O problema é de toda uma civilização e não apenas da pessoa em questão. Que humanos somos nós se deixamos pessoas tornarem-se robôs?